Considerando como a doença é comum, como é tremenda a mudança espiritual que traz, como é espantoso quando as luzes da saúde se apagam, as regiões por descobrir que se revelam, que extensões desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precipícios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura expõe, que antigos e rijos carvalhos são desenraizados em nós pela acção da doença, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se acima da cabeça e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos à superfície na cadeira do dentista e confundimos o seu «bocheche... bocheche» com saudação da divindade debruçada no chão do céu para nos dar as boas-vindas - quando pensamos nisto, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ciúme, por entre os principais temas da literatura.
Virginia Woolf, in "Acerca de Estar Doente"
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
domingo, 9 de outubro de 2011
Sentido da Vida
Interrogo-me ultimamente, talvez pela sensação de proximidade da morte que a doença proporciona, sobre o sentido da vida. Há aqui uma pequena variante face ao que se possa pensar desta minha frase anterior. Não me debruço tanto sobre "o que faço, ou fiz aqui, ao longo deste meu tempo de vida", mas sim sobre "o que é realmente importante na nossa vida?". Para o cirurgião que me operou, a resposta deve ser (imagino) fácil. Adivinho que será "salvar vidas!". Para um craque de futebol tipo CR a resposta será "marcar golos", para um banqueiro será provavelmente "aumentar os lucros", para um político sério(?) será "contribuir para o bem estar e progresso dos cidadãos", para o trabalhador esforçado que ganha o ordenado mínimo será porventura "garantir um futuro melhor para os filhos...".
Mas... marcar golos e salvar vidas, ou educar cidadãos, ou varrer ruas ou seja, exercer condignamente uma profissão, dá um sentido à nossa vida?
Continuo à procura de respostas, sobretudo no interior de mim mesmo, que ainda não encontrei por completo - mas palavras como amizade, família ou liberdade vão fazendo cada vez mais sentido. Pelo menos na minha vida.
sábado, 8 de outubro de 2011
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